terça-feira, 26 de abril de 2011

A Dialética da Lagartixa-Cebola

Estava eu a tomar banho num dia quente destes de Abril quando, não mais do que de repente, avistei no forro de madeira de meu banheiro uma destas lagartixas antigravitacionais, que perambulam por aí de cabeça pra baixo, desafiando a física moderna e todo o nosso bom humor familiar.
Porém, notei que esta peça em particular possuía um andar um pouco mais cadenciado, maroto, cheio de malícia e despudor. Logo notei que se tratava de uma Lagartixa-Cebola, e pude então com clareza observar: "Porra, já está locassa a esta hora?" - A noite acabara de chegar.
Ela então caiu. De repente desabou. No meio da roupa suja, entre minhas peças íntimas e alguns pedaços de papel higiênico molhado ainda puro, daqueles que a gente deixa a mercê da água de modo acidental.
Vendo tal cena, fiquei deprimido e me aproximei. Deixei o banho de lado e fui observá-la ali, se debatendo, ainda que lenta e de maneira patética, mas lutando pra sair daquela enrascada em que a própria havia se armadilhado.
Pensei: "Oras, mas vejam que situação." - Fiquei embaraçado pela mesma, me senti mal. Uma lagartixa claramente embriagada me expondo a vergonha alheia e irrompendo a tranquilidade aparente de meu bem estar aquático. Onde já se viu?
Podia esmagá-la ali mesmo entre as roupas e toalhas a serem lavadas, ou então utilizar a porta sanfonada do banheiro para extingui-la de maneira ainda mais rápida, cruel e apertada.
Mas recuei, preferi não interferir. É óbvio que não sou adepto a violência contra os seres, não importando a quantidade de alcóol ingerida por eles, e nem mesmo suas classes e ordens no reino natural.
Voltei ao chuveiro e por um instante desviei meus pensamentos daquela situação paradigmática.
Foi tempo suficiente para que o pequeno réptil tomasse tenência e desaparecesse de minha vista sem deixar maiores provas de que um dia ali se arrastou.
Quão grande foi minha surpresa! Dentro daquela merdinha de ser ainda restava energia vital para pregar-me peças! Oras! Sumiu mesmo!

Restou-me apenas em memória aquela imagem frágil, ébria e enigmática.

Tão subto quanto apareceu, o bichinho então desapareceu.
E é bem provável que em algum lugar perto dali, facilmente se fudeu.

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